Acesso prioritário disponível Mozart, os Jesuítas e a Capela dos Espelhos do Klementinum
Uma capela do século XI, quatro séculos de ambição jesuíta, um salão barroco forrado a espelhos — e um dia de janeiro de 1787 em que Mozart ali entrou. A história por detrás da sala junto à qual termina a visita guiada ao Klementinum.
Todos os visitantes do Klementinum passam pela Capela dos Espelhos — o ponto de encontro da visita guiada fica mesmo ao lado — e a maioria passa sem perceber o que está por detrás das portas: um salão do Alto Barroco forrado a espelhos incrustados em mármore e estuque dourado, dois órgãos setecentistas e uma lista de convidados que inclui Wolfgang Amadeus Mozart, que ali veio pela primeira vez a 13 de janeiro de 1787. A capela é a expressão mais concentrada daquilo que o Klementinum foi durante dois séculos: o grande colégio boémio da ordem jesuíta, construído para subjugar os sentidos ao serviço da persuasão. Este guia traça todo o arco — desde uma capela do século XI dedicada a São Clemente, passando pela ascensão dos jesuítas e a sua dissolução abrupta em 1773, até à visita de Mozart que o complexo ainda hoje evoca — e explica como entrar efetivamente na Capela dos Espelhos nos dias de hoje, algo que a visita padrão não faz.
Antes dos jesuítas: uma capela, um mosteiro, uma guerra
A história do local começa muito antes do Barroco. Uma capela do século XI dedicada a São Clemente — o Klementinum ainda hoje carrega o seu nome — erguia-se aqui junto à passagem ribeirinha que viria a tornar-se no acesso à Ponte Carlos. No período medieval, um mosteiro dominicano cresceu em torno da capela, colocando o local nas mãos de uma ordem erudita séculos antes de os jesuítas chegarem. A localização era o destino: este canto da Cidade Velha controlava a rota entre a travessia do rio e a praça do mercado, razão exata pela qual todos os proprietários subsequentes lutaram para o manter.
As Guerras Hussitas quase puseram fim à história. Em 1420, o mosteiro foi severamente danificado enquanto Praga se contorcia nas guerras religiosas que tornaram a Boémia célebre em toda a Europa. A instituição dominicana nunca recuperou plenamente a sua posição, e durante mais de um século o local permaneceu como propriedade eclesiástica subutilizada numa cidade que se tornara um bastião da tradição hussita e anti-romana. Esse contexto importa para tudo o que se segue: quando os jesuítas foram enviados para Praga, foram enviados para território hostil.
Em 1556, chegou a transformação. A Companhia de Jesus — fundada apenas dezasseis anos antes — tomou o antigo local dominicano e estabeleceu um colégio, a ponta de lança da campanha da Contrarreforma para reconquistar a Boémia. A escolha do local foi estratégica ao ponto da frontalidade: diretamente na principal rota de acesso à Cidade Velha, em frente à ponte, no meio de uma cidade de pendor protestante. O Klementinum foi concebido desde o primeiro dia como arquitetura com um argumento.
O século jesuíta — construir um rival ao castelo
Os jesuítas jogaram o jogo longo, e a sua moeda era a educação. O seu colégio cresceu até se tornar a instituição educativa dominante na Boémia, absorvendo ativos intelectuais pelo caminho: em 1622, a biblioteca da Universidade Carolina — a universidade mais antiga da Europa Central — foi transferida para o Klementinum, e em 1654 o colégio foi formalmente fundido com a própria universidade. No espaço de um século após chegarem como missionários a uma cidade hostil, os jesuítas controlavam o núcleo do ensino superior boémio a partir deste único quarteirão.
A arquitetura acompanhou a ambição. Peça a peça, a ordem comprou e demoliu as casas circundantes, até o seu colégio ocupar um quarteirão inteiro — cerca de 20 000 metros quadrados, o que ainda hoje faz do Klementinum o segundo maior complexo edificado de Praga, a seguir ao Castelo de Praga. A comparação é o ponto: numa cidade dominada pelo castelo real na margem oposta, os jesuítas ergueram um monumento de escala secular à sua própria ordem no coração da cidade mercantil.
A grande fase de construção chegou tarde, entre 1709 e 1726, e produziu as salas pelas quais os visitantes hoje fazem fila: a Sala da Biblioteca Barroca com os seus frescos de Jan Hiebl, a Torre Astronómica de 1722 e a Capela dos Espelhos. Vale a pena reter estas datas durante a visita — quase tudo o que se vê foi construído num único surto de dezassete anos, uma declaração coordenada de confiança feita, em retrospetiva, escassos cinquenta anos antes de a ordem ser dissolvida.
O tráfego intelectual através do complexo nesses anos foi notável. A biblioteca do colégio, engrossada pelas coleções universitárias que absorvera em 1622, crescia até se tornar um dos grandes repositórios de livros da Europa Central; os seus salões formavam os administradores e o clero das terras boémias; e as coleções nacionais que viriam a ser ali alojadas incluem materiais relacionados com Tycho Brahe — o astrónomo imperial cujos anos em Praga fizeram da cidade, por breves momentos, o centro da ciência europeia — e com Comenius, o grande reformador educacional checo. O Klementinum nunca foi apenas uma instituição religiosa; era a sala das máquinas do saber boémio, razão exata pela qual sobreviveu aos seus construtores.
A Capela do Espelho — persuasão pelo reflexo
A Capela do Espelho foi construída entre 1722 e 1726 para a Congregação Mariana Latina do colégio — uma confraria leiga jesuíta — e a sua autoria é genuinamente incerta: as atribuições apontam para František Maxmilián Kaňka ou Kilián Ignác Dientzenhofer, os dois grandes nomes do Barroco Alto de Praga. O que não é incerto é o efeito. A assinatura da capela reside no uso invulgarmente extenso de espelhos embutidos na decoração tanto das paredes como da abóbada, intercalados com mármore, estuque dourado, frescos e pinturas, até as superfícies se dissolverem em reflexos umas das outras.
Espelhos numa capela não eram vaidade — eram teologia por outros meios. A arquitetura devocional barroca procurava subjugar, tornar o céu sensorialmente presente, e as superfícies espelhadas multiplicavam a luz das velas, os dourados e o céu pintado em todas as direções. A sala é pequena para os padrões do complexo, o que concentra o efeito; os relatos da época e os visitantes modernos convergem na mesma reação: um deleite ligeiramente desorientado. Continua a ser um dos interiores barrocos mais distintivos numa cidade onde não falta concorrência.
A segunda preciosidade da capela é o som. O órgão original, construído em 1732 pelo organeiro Tomáš Schwarz, ainda ocupa o coro alto; um segundo órgão barroco, trazido da igreja de Svatobor u Doupova, foi instalado na década de 1950 no local onde antes se erguia o altar-mor. Dois órgãos de época numa sala de pedra espelhada produzem a acústica que transformou a capela num verdadeiro espaço de concertos, e não numa peça de museu — o que, como veremos, é também a chave para lá entrar.
13 de janeiro de 1787 — Mozart no Klementinum
Mozart chegou a Praga em janeiro de 1787, impulsionado pelo espantoso sucesso local de As Bodas de Fígaro, e a cidade ofereceu-lhe a receção mais calorosa da sua carreira. A 13 de janeiro de 1787 visitou pela primeira vez o Klementinum, e regressou várias vezes. O relato preservado dessa visita é encantador na sua especificidade: os estudantes do seminário tocaram para ele uma das suas próprias sinfonias, e Mozart retribuiu com uma atuação sua. Um busto do compositor, da autoria do escultor Emanuel Max, encontra-se no antecâmara da Capela dos Espelhos para assinalar esta ligação.
Terá Mozart tocado o órgão da Capela dos Espelhos? A tradição diz que sim — o órgão Schwarz de 1732 é amplamente descrito como o instrumento que ele tocou — e a honestidade exige a nota de que as cartas que sobreviveram dele não o mencionam. O que os registos confirmam é a presença: Mozart esteve nestas salas, ali se trocou música, e os órgãos da capela eram os melhores instrumentos de tecla do edifício. A atribuição é uma tradição plausível, mais do que um facto documentado, e os melhores guias apresentam-na exatamente dessa forma.
Há um posfácio institucional apropriado: a Biblioteca Nacional que hoje ocupa o Clementinum guarda uma coleção de Mozartiana entre os seus tesouros. O edifício onde os seminaristas lhe tocaram a sinfonia em resposta tornou-se um dos lugares onde o seu legado é formalmente preservado — uma ligação mais discreta e duradoura do que qualquer anedota sobre o coro-alto.
A visita também nos revela o que era o Klementinum em 1787: já não era uma fortaleza jesuíta — a ordem fora dissolvida catorze anos antes —, mas sim um complexo de biblioteca estatal e seminário, suficientemente secular para que o compositor mais na moda da Europa pudesse ali entrar como convidado de celebridade. O romance de Praga com Mozart, mais caloroso do que o de Viena, faz parte da imagem que a cidade tem de si até hoje, e a capela do Klementinum é uma das poucas salas sobreviventes onde esse afeto se viveu em pessoa, e não num teatro. Quando os programas de concerto da capela se apoiam em Mozart, não é para agradar ao público; é tocar o compositor da casa.
1773 e depois — do colégio jesuíta à Biblioteca Nacional
A era jesuíta terminou com uma rapidez surpreendente. Em 1773, o papado suprimiu a Companhia de Jesus em toda a Europa, e a ordem que passara dois séculos a construir o Klementinum perdeu-o quase da noite para o dia. A imperatriz Maria Teresa agiu com determinação para secularizar o património: o complexo foi estabelecido como observatório, biblioteca e instituição universitária — a maquinaria académica continuando sob direção estatal, com o propósito missionário amputado.
A ascensão da biblioteca foi imediata. Em 1781, a Biblioteca Nacional foi fundada com base nos acervos do Klementinum e, a partir de 1782, a instituição tornou-se biblioteca de depósito legal, com direito a receber um exemplar de cada obra publicada — o mecanismo que transformou uma coleção teológica jesuíta num arquivo nacional da produção impressa checa. Os materiais acumulados desde então abrangem desde manuscritos medievais até coleções relacionadas com Tycho Brahe e Comenius, e o Klementinum continua a ser, ainda hoje, a sede da Biblioteca Nacional da República Checa. É por isso que o acesso dos visitantes se faz através de percursos guiados: as obras-primas barrocas encontram-se no interior de uma instituição de investigação em pleno funcionamento.
A Capela dos Espelhos encontrou uma segunda vida. Os usos profanos foram-se sucedendo até 1936, quando a capela assumiu o papel que mantém até hoje: um espaço dedicado a concertos e eventos culturais. Atualmente, acolhe programas de música clássica, encontros e até casamentos — e só abre para esses eventos. Essa é a conclusão prática para os visitantes: o percurso de visita guiada encontra-se junto à capela, mas não percorre o seu interior, por isso, se quiser estar entre os espelhos, reserve um concerto noturno. Ouvir o repertório de época no terreno de dois órgãos barrocos, sob a luz quente de velas multiplicada pelos espelhos da abóbada, é a aproximação mais fiel possível a 13 de janeiro de 1787 — e uma forma muito melhor de viver a sala do que qualquer visita guiada.
Perguntas frequentes
Tocou Mozart realmente no Klementinum?
Mozart visitou o Klementinum pela primeira vez a 13 de janeiro de 1787, durante a estadia em Praga que se seguiu à receção entusiástica de As Bodas de Fígaro, e regressou várias vezes. Os estudantes do seminário tocaram uma das suas sinfonias para ele e ele tocou em retribuição. Se tocou especificamente no órgão Schwarz de 1732 da Capela dos Espelhos é tradição, não facto documentado — as suas cartas não o mencionam —, mas a sua presença nestas salas está bem registada.
Posso ver a Capela dos Espelhos na visita guiada ao Klementinum?
O ponto de encontro da visita fica mesmo ao lado da Capela dos Espelhos, mas o percurso em si abrange a Biblioteca Barroca, a Sala do Meridiano e a Torre Astronómica. A capela só abre durante eventos — por isso, para ver o interior, reserve um dos concertos de música clássica ou eventos culturais ali realizados. O concerto também lhe permite ouvir a sala, que é o objetivo.
Porque se chama Capela dos Espelhos?
Pelo uso invulgarmente extenso de espelhos embutidos na decoração das paredes e do teto abobadado, combinados com mármore, estuque dourado, frescos e pinturas. Os espelhos multiplicam a luz e as superfícies pintadas em todas as direções — uma peça deliberada de teatro sensorial barroco construída entre 1722 e 1726 para a Congregação Mariana do colégio jesuíta.
Quem construiu o Klementinum?
A ordem jesuíta, ao longo de cerca de 170 anos. Tomaram posse de um antigo local dominicano danificado pela guerra em 1556, absorveram a biblioteca da Universidade Carolina em 1622, fundiram-se com a universidade em 1654 e realizaram a principal fase de construção entre 1709 e 1726 — produzindo a Biblioteca Barroca, a Torre Astronómica e a Capela dos Espelhos. O resultado é o segundo maior complexo de edifícios de Praga, depois do Castelo de Praga.
O que aconteceu aos jesuítas no Klementinum?
A Companhia de Jesus foi suprimida pelo papado em 1773, e a imperatriz Maria Teresa converteu o complexo para fins estatais como observatório, biblioteca e instituição universitária. A Biblioteca Nacional foi fundada com base nas suas coleções em 1781, com depósito legal a partir de 1782. O Klementinum é a casa da biblioteca nacional checa desde então.
Ainda há concertos na Capela dos Espelhos?
Sim — a capela é utilizada como espaço para concertos e eventos desde 1936, e nela são apresentados regularmente programas de música clássica, tocados numa sala que alberga dois órgãos barrocos, incluindo o instrumento original de 1732, da autoria de Tomáš Schwarz, no coro alto. Os bilhetes para os concertos são separados da visita guiada diurna à biblioteca, à Sala do Meridiano e à torre.